Amor Kalunga

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Amor Kalunga

Fiz uns versos na modalidade do repente chamada Nos dez de queixo caído pra uma história de amor que se passa na região de Cavalcante (GO), terra das comunidades quilombolas dos Kalunga. Dei pro amigo Roberto Correa musicar, vai sair coisa bonita!

 

AMOR KALUNGA
oh, santinha abençoada
nossa senhora das neves
tu que em linha torta escreves
e por nós é tão louvada
na tua festa sagrada
um dia fiz um pedido
de pronto foi atendido
meu deus, eu nem merecia
tão nova, nada sabia
nos dez de queixo caído

o amor me veio de repente
leve como um passarinho
que um dado dia cedinho
deu um pio diferente
mais afinado, estridente
bem dolente e doído
vei bater no meu ouvido
e eu fiquei encucada
mole, boba e apaixonada
nos dez de queixo caído

um rapaz do Riachão
me sequestrou do meu peito
buliu comigo de um jeito
que eu não pude dizer não
dei a ele minha mão
e um coração derretido
flechou tão certo o cupido
que tantos anos depois
somos felizes os dois
nos dez de queixo caído

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Indo a cavalo

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Indo a cavalo

recordando uma música que escrevi há uns meses. 'indo a cavalo' é um trotezinho lento que carece da voz da Ana Reis, parceira dessa música.

(a lembrança equina me deixa perguntando onde no mundo andará o baio Junim...)

 

INDO A CAVALO
túlio / ana reis

C                                 G
Me vi passando as folhas
C                                 Em
Vi rabisco, frases soltas
C                                   D(9)
Rimas de um verso morto
C                          Am              Em
Sem linha, sem som, sem porto

C                                      G
Fiquei lembrando sua mão
C                      Em
Os dedos no violão
C                                    D(9)
Música para os meus poros
C                                      Em
Se pensar demais, eu choro

C                                   G
Ainda me lembro daquele tempo
Em                   D
Eu escrevia poesia
C                                               G
Era tão minha a sua maior alegria

C                                              G
Ainda me lembro daquele tempo
Em                               D
Hoje suspiro mais leve
C                                                              G
Me despi da ilusão, visto um sorriso breve

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Esse agro que não é pop, nem tech, nem tudo

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Esse agro que não é pop, nem tech, nem tudo

Eu fico p. da vida quando vejo essa campanha #agroépop #agroétech #agroétudo da da rede globo... e fiz uns versinhos em desagravo:

 

Eu fico bem puto vendo a Rede Globo
Dizer que agro é pop, é tech, é tudo
Pra crer nisso aí tem que ser tabacudo
Ou muito humilde e feito de bobo
Indústria-riqueza é demais pra ser probo
É só contar um dos lados da história
Pois é mais barato nessa trajetória
Botar gente jovem num filme bacana
Que fala o que quer e no fundo tem engana
Tem força, tem grana, mas não essa glória

De quando em quando eu vou pra Goiás
E pela janela não tem novidade
O verde é um só e sem diversidade
Cerrado nativo você não vê mais
Não é só devastar, é veneno demais
Que em vários países já é proibido
E o Berço das Águas, bem como é sabido
Está sob o risco de grande extinção
Se f*de o bioma, se f*de a nação
Meu filho pequeno também tá f*dido

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Décimas do Cerrado

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Décimas do Cerrado

Para Roberto Corrêa:

Beleza primeira do nosso cerrado
É ver um olhinho de água brotando
Do fundo da terra a riqueza jorrando
Bem como um milagre não anunciado
Ali logo ao lado se vê fulorado
Um barbatimão, um ipê, um pequi
Um cega-machado e outros paus daqui
Que enfeitam de flor toda a redondeza
É bela e brava essa natureza
Que vive e resiste aos desmandos aqui

O céu de Brasília inda é soberano
Para o pica-pau, periquito, inhambú
Pro galo-do-campo e juriti-pupu
Que voam daqui até o céu goiano
Que cantam também em solo cuiabano
Se fartam de tanto comer cajuí
Mangaba, cagaita e bacupari
As frutas nativas do nosso cerrado
Eles que tão certos e eu que tô errado
Daqui no cerrado querer açaí

 

Foto: Bento Viana

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AÇUDE DE PAIXÕES

Deu no Metro News:

Túlio e as vertentes das paixões em poesia e canções.

A primeira matéria do ano é um mergulho no límpido açude de paixões do músico, compositor e cantor brasiliense, Túlio Borges, que acaba de lançar seu terceiro álbum, “Cutuca Meu Peito Incutucável”. Enviado pelo próprio artista, o CD me fisgou no primeiro acorde, proporcionando-me uma viagem que me levaria a uma enxurrada de boas lembranças impregnadas no meu imaginário. O cheiro da terra molhada, os banhos nas alvoradas, nos açudes do meu sertão. Ouvi inteiro, sem respirar, para não perder nem uma nuance, pois Túlio Borges nos convida a deitar sobre a poesia nordestina na qual suas raízes estão cravadas. Produzido e arranjado pelo artista, o disco tem oito faixas em que ele fala de coração, seus amores e todas as entrelinhas das paixões. Acompanhado de uma seleção de músicos que tem o saudoso percussionista maranhense Papete, Rafael dos Anjos, Victor Angeleas, Pedro Vasconcellos, Junior Ferreira, Oswaldo Amorim, Valério Xavier, Aldo Justo, Caloro e Sérgio Duboc. A capa e arte gráfica são assinadas pela artista plástica alemã Tina Berning.

“Cutuca Meu Peito Incutucável” é o segundo álbum de uma trilogia que começou com o CD “Batente de Pau de Casarão”, de 2015. A ambientação sonora, instrumentação e a veia poética nordestina também ouve-se aqui.

O disco abre e fecha com uma parceria riquíssima de sons e palavras entre Túlio e o poeta paraibano, o visceral Jessier Quirino. Na primeira, “Contracachimbo da Paz”, Túlio dá asas ao poema que recebera do amigo. Aqui ouviremos como tema, o amor que desfaz, que angustia, que machuca a alma; a voz solene vestida de uma sonoridade rica em detalhes percussivos. Na sequência temos uma parceria do artista com a cantora e compositora Ana Reis: “Concreto, Amor e Canção”, falando de desilusões. A cantora divide os vocais com Túlio, nos acariciando os tímpanos com esse bálsamo sonoro. Depois de vivenciar uma imagem de uma bela em praça pública, o poeta Túlio coloca no papel seus desejos aflorados. Com citação à música “Fogo e Paixão”, do saudoso Wando, a parceria com o compositor e cantor paraibano Afonso Gadelha “Ela Levantou os Braços e Eu Morri de Amores” é um xote/reggae que nos conduz para um açude de desejos a nos banhar de poesia. “Eita, quanto tempo o teu cheiro fica em minha boca/Parece que meu coração encontrou onde morar”, diz a letra do xote “Curvas” do poeta e cantor Zeto, que ganha de Túlio uma interpretação recheada de emoção.

Com apresentação do poeta brasiliense Renato Fino no encarte do CD, que escreve sobre a paixão, fico com as frases a seguir: “E se paixão for veneno, bote uma dose aí/ A Paixão é humana/É Desumana/Feita de punhal e plumas/Dentes e unhas/É feita de pólvora a paixão/Não é coisa de gente/De pessoa, mulher ou homem...”  Ainda ouviremos “Grandes Olhos” (Aldo Justo/Alexandre Marino), “Cantiga” dos irmãos Clodo e Clésio Ferreira, “Vem Não” parceria com Climério Ferreira, e fecho esta rica audição com “Enxerida  no Contexto”, parceria com Jessier Quirino.

Que venha logo o terceiro dessa trilogia nordestina de poesia e canção. Um dos melhores que ouvi nos últimos anos!

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PASSION MUSIC

Deu no musicabrasileira.org:

Passion Music

— In his latest release, Túlio Borges continues his incursion into the Brazilian Northeast rich musical tradition with lively forrós and infectious rhythms. His soft-spoken voice and simple melodies are a joy to listen to — and dance, if you’re so inclined — with his third solo album.

To say the album is festive and passionate would be an understatement. I have not been this excited about a forró album since I don’t know when. Starting with the title, this album sets the tone for the music and beautiful lyrics we hear. It is clever and with beautiful music. For the non-Portuguese speaker, the album title can be a challenge. Although it is translatable, the meaning of the Portuguese words gets lost in translation. Cutuca Meu Peito Incutucável can be explained as “poke my unpokable chest or heart.” This is as colloquial language as one gets. It may not sound appealing in English, but in Portuguese it is right on target with the music you’ll hear. Another important point here is that this is all new music. There are lots of forró classics out there, and several artists choose to re-record those. That is not the case with Túlio. He brings original material, and very good music it is!

Túlio Borges produced and arranged all tracks in the album. His band does a very fine job in providing the right atmosphere for these songs. Among the musicians, we hear Rafael dos Anjos on acoustic guitar, Junior Ferreira on the accordion, Pedro Vasconcellos on cavaco, Hamilton Pinheiro on bass and Valério Xavier and Papete on percussion. Other guests add some great accompaniment support in other tracks, such as Victor Angeleas on mandolin, Renato Glória on drums and more.

If, like me, you obtain this album via any of the online stores, make sure you get the liner notes, available for download in Túlio’s site. You’ll be able to enjoy his songs a whole lot more. Another great benefit of the notes is Renato Fino’s introduction. He presents the basis for Cutuca Meu Peito Incutucável: love. Song after song, you will experience torrid passions. In the opening track, “Contracachimbo da Paz,” pretending love is the focus, as the lyrics echo that a loved one destroyed castles, polished the pain in one’s soul and put out the peace pipe. In contrast, “Grandes Olhos” is true love found. A beloved big eyes make one’s heart soar and fly high. In “Concreto, Amor e Canção,” it is the weather that shapes love. Rain falls and one wishes that it would bring passion drops to solidify one’s love.

The simple and strong emotions sung in each track are poetically enhanced by the beautiful verses in this album. Those verses go hand in hand with life in the Brazilian Northeast countryside. Passion is alive through Túlio’s heartfelt performances and songs in Cutuca Meu Peito Incutucável.

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O futuro passou ontem lá em casa...

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O futuro passou ontem lá em casa...

Apresentei-me na Casa da Esquina - ponto de cultura na cidade de Limeira/SP - mais cedo este ano. Adorei estar ali, casa de resistência que é, de atenção à comunidade, voltada para a educação, saúde e cultura e tocada por uma jovem com uma ideia na cabeça... Cheguei lá tinha café passado, bolo com cobertura e chovia. Comíamos, conversávamos no sofá e me sentia em casa.

No início do mês, Mariana me pediu que escrevesse algo para eles produzirem um pequeno vídeo de fim de ano. Com filho pequeno em casa, vinha enrolando até que o fiz no avião, voltando de uma gravação no Sr. Brasil da TV CUltura, apresentado pelo Rolando Boldrin. Me inspirei no mote "o futuro passou ontem lá em casa", de Zeca Bahia. O som não é dos melhores pois gravei no celular, em casa correndo enquanto o Nino ameaçava chorar... FELIZ 2018!

 

O ano que vem passou ontem lá em casa e disse que o futuro vai ser melhor. Disse que o presente é bom, que é também doído, que o passado pode ter sido ruim mas que também, certamente, foi bom. Que foi tudo uma mistura. Disse que o futuro assim exatamente o será, alternando as horas duras com as horas doces, os dias de subida pedra acima e os dias de descida e de sombra, de horas de alegria, de muitas horas de tédio - mas sempre um pouquinho mais de tédio do que de emoção. E tudo isso, de novo e pra sempre com a diferença de que, no futuro, nós mesmos seremos uma versão melhorada de nós mesmos. Os nossos defeitos sempre um pouquinho mais despiorados. 

O futuro disse ontem que ano vem a vida virá com menos partículas de feiúra porque a gente vai estar mais experiente. No futuro, a gente vai estar mais preparado para a beleza já bonita que exite. O ano que vem tomou um cafezinho com a gente, sentou no sofá, perguntou da família, ficou sabendo das notícias... Disse que é preciso prestar atenção pro presente porque o presente é tudo o que a gente tem. Disse que, bem dizer, o presente é o melhor presente que só ganha quem está vivo. 

Sentado num tamborete na varada, depois de um silêncio de tanto falar, disse que cuidemos da casa porque a casa é uma das melhores coisas que temos. Disse que demos atenção pro jardim, que se ria na cozinha, se enfeite o quarto e se tome muito banho bom no banheiro, consciente de que o chuveiro é o maior luxo do nosso tempo.

Saiu lá de casa era boca da noite. Findou a visita ontem dizendo que a casa é pro nosso corpo o que o nosso corpo é pra nossa alma: reveladora de quem somos, de quem podemos ou de quem conseguimos ser. E que pra tudo tem uma esperança, ainda que a esperança seja faz as pazes com tudo que a vida nos dá. De modo que o ano que vem saiu ontem lá de casa rindo, dizendo que o futuro está quase presente e que se deve conciliar com o passado. E que no fim do ano ele chega, e que vai estar feliz de nos ver.


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