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Entre amigos em Tavira, Portugal

Dois anos atrás, estávamos entre amigos em Tavira, Portugal, eu e os parceiros Victor Angeleas, bandolinista e o poeta Vicente Sa (e a querida amiga Lucia Leão, produtora de shows que faríamos em Portugal). Não bastasse a delícia de estarmos ali juntos, tivemos noites memoráveis com novos amigos, iguarias e vinhos especiais.

Na pequena cidade de Tavira, fiquei muito impressionado com o fato da cidade ter uma história tão antiga que vai além de 2000ac. Uma noite, depois de um jantar já muito animado, chegamos em casa e nos animamos mais vinho do porto caseiro - um luxo! - e dá-lhe a dar risadas com o vicente. Victor puxou uma melodia e, sob o impacto da história do lugar, pensamos a história de uma senhora que vivia ali há milênios. 

Está aí a 'Velha Senhora' pra contar essa lembrança gostosa da viagem e dos amigos.

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Cutuca meu peito incutucável

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Cutuca meu peito incutucável

Vai aqui uma provinha, a prévia do disco que estamos mixando!

Estou de volta na brisa da estrada
A boca da noite calada no ar
O vento bem leve de tão acanhado
Um frio danado cortando o luar

Juro que fico morrendo de medo
De não chegar cedo, de nunca chegar
Nos braços de quem me espera
Nos braços do meu amor

Ah, meu deus, se é felicidade
Esse modo de ter saudade
Eu queria morrer de dor

 

 

Tina Berning

Tina Berning

Começamos uma campanha de financiamento para finalizar o disco, onde você pode reservar o seu disco e optar entre vários outros produtos. Fica de olho e espalha o boato. O link é esse: catarse.me/cutuca.

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O MAIOR BELISCÃO DO ALICATE

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O MAIOR BELISCÃO DO ALICATE

Terça-feira, dia 21, foi um dia muito massa... pela primeira vez fizemos o show "O maior beliscão do alicate", que é totalmente diferente dos outros shows que havia feito: é pesado! Mas doce. Foi um astral muito bom. Essa semana ainda vamos deixar marcado o próximo show, não quero esperar.

Enquanto não saem vídeos ou áudio, tá aqui o registro da Maísa Coutinho!

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A cabeça adiante, as ações um pouco atrás e o corpo presente. Avante!

Muita gente comenta que estou sumido e estou. Mas preparando várias coisas! Uma delas é um projeto que talvez seja o que mais me satisfará musicalmente. Gosto bastante de como saíram meus dois primeiros discos e como está o Cutuca meu peito incutucável (este com lançamento atrasado, mas pronto e bonito à beça). Porém, eles têm algo que me incomodam um pouco que é uma falta de ousadia, ou o conforto de estarem assentados demais num universo sonoro (maravilhoso) dos anos 70.

Dito isso, chamei um jovem excelente músico que admiro, João Pedro Mansur, para produzir um novo trabalho, onde pretendemos sairmos daquele lugar gostoso, mas conhecido. E uma das etapas do projeto se inicia com um primeiro show-teste, dia 21/3. Novo repertório e concepção. Sou suspeito pra dizer que quem já gostava do som, talvez gostará ainda mais! É o que espero.

Até lá!

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briga de passarinhos

hoje apartei briga de dois sabiazinhos. acho que não era amor; estavam encagados um no outro pela pata. vinham de piadeira grande no ar até caírem no chão e eu separá-los. a perseguição continuou depois em pleno voo. ou era só brincadeira?

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O POETA DEDÉ MONTEIRO

Foto: Asley Ravel

Em algum dia de 2013, eu visitei o poeta Dedé Monteiro em sua casa, em Tabira, Pernambuco. Fui lá pedir a benção de usar o mote de sua autoria "Batente de Pau de Casarão" como título do disco de 2015. Nesse dia, gravei o áudio da nossa conversa onde ele diz da origem do mote, do carinho por Zeto do Pajéu, e de outros motes. Filmamos ainda a declamação do poeta do versos do poema Batente de Pau do Casarão.

Eta, Dedé Monteiro... Obrigado pela poesia!

Abaixo os versos de seu poema que deu origem ao mote

O BATENTE DE PAU DO CASARÃO
Dedé Monteiro

Quando foi construída há muito mais
De cem anos a casa da fazenda
Seu batente foi feito de encomenda
Por alguém que morreu oitenta atrás
Sob o peso cruel dos dois portais
Humilhado de bruços sob o chão
Ele lembra quem sabe um seu irmão
Que no mato ficou sem ser cortado
Lamentando o destino desgraçado
Do batente de pau do casarão

Era rija, quinada e resistente
Essa peça de pau que existe ainda
Mas o tempo, dragão que tudo finda
Foi aos poucos deixando diferente
Hoje, um velho pisando esse batente
Sentirá a maior recordação
Pois em tempos que longes já se vão
Ele forte pisara essa madeira
E hoje fraco se pisa é na caveira
Do batente de pau do casarão

Nessa casa, durante o casamento
Do primeiro casal que morou nela
O batente levou mais pisadela
Do que Cristo durante o seu tormento
Até tarde durou seu sofrimento
Recebendo e soltando a multidão
Que entrava e saía no salão
Trinta vezes, quarenta por minuto
Sem querer maltratando o corpo bruto
Do batente de pau do casarão

Nessa noite, depois que todo mundo
Foi embora deixando os dois a sós
Eles dois do amor ouvindo a voz
Se beijaram de um modo tão profundo
Que a esposa depois respirou fundo
E lhe disse "querido, agora não
Eu depois lhe darei meu coração
Mas queria aguardar esse depois
Vendo a lua sorrindo pra nós dois
Do batente de pau do casarão"

Quantas vezes ouviu em sua vida
As batidas da porta que sustenta
Ora calma, mas ora violenta
Dependendo da força da batida
Mais de sua metade foi comida
Pelos pés da passada geração
Nunca mais a alma humana pôs a mão
Onde os pés provocaram tantos danos
Danos esses que falam sobre os anos
Do batente de pau do casarão

Sobre a sua carcaça a gente lê
Sua vida, seus feitos, sua história
Desde o tempo feliz de sua glória
Aos destroços que agora a gente vê
Onde estão os seus donos e por que
O deixaram nas mãos da solidão
Os seus restos mortais já não nos dão
A firmeza do tempo em que era vivo
Resta agora somente o negativo
Do batente de pau do casarão

Quantas vezes seu dono não botou
Entre as oito da noite, nove ou dez
Uma cuia com água entre seus pés
E sentado em seu dorso se banhou
Quantas vez alguém não o pisou
E gritou "ô, de casa, meu patrão" 
E no mesmo momento um cidadão
Respondendo "ô, de fora", a porta abria
Só então a visita se descia
Do batente de pau do casarão

Sua face rugosa, rota e fraca
Guarda ainda mil marcas do passado
Provocadas por gumes de machado
Roçadeira, serrote, foice e faca
Mesmo assim, sua vida tão opaca
Vale muito para mim, sou seu irmão
Sendo escravo da mesma escravidão
Sou batente também de carne e osso
Pois carrego mais peso no pescoço
Que um batente de pau de um  casarão

 

A PORCA PRETA PELADA
Dedé Monteiro 

Dedé Monteiro
No dia em que eu me casei
Ganhei uma bacorinha.
Era preta e peladinha,
Com muito gosto a criei.
Cresceu tanto que eu nem sei
discriminar a cevada.
Assombrava a meninada
Com seu tipo de gigante!
Parecia um elefante
A porca preta pelada.

Todos tinham medo dela,
Mas ela era tão mansinha
Que eu fiz uma cangalhinha
Pra carregar coisa nela…
Depois comprei uma sela
E a bicha deu de tacada:
Aprendeu toda passada,
Sem ser preciso ensinar…
Todos queriam comprar
A porca preta pelada.

Mas eu não vendia não.
Podia vir ouro em pó
Que eu não dava um mocotó
Da bicha por um milhão!
Um dia um rico ancião
Chegou na minha morada
Com uma vaca raçada,
Me cantou pra fazer troca,
Mas eu disse: é de maroca
A porca preta pelada.

O tempo se foi passando,
A fama dela crescia:
Eu estava almoçando um dia
E, quando estava almoçando,
Ouvi um carro zuando,
Saí pra ver da calçada,
Vi o carrinho na estrada,
Dele o prefeito descer
Dizendo: ‘eu vim só pra ver
A porca preta pelada…’

Tudo ia correndo certo,
Mas um dia aconteceu:
Quando o dia amanheceu
Procurei-a e não vi perto…
E, vendo tudo deserto,
Disse: ‘a bicha foi roubada…’
Mas achei a condenada
Na roça de Pedro Mudo.
Estava acabando tudo
A porca preta pelada.

Tudo que o Pedro cobrou
Paguei sem fazer questão:
Notei que tinha razão,
Pois quase nada ficou…
E ela não se conformou,
Foi lá outra madrugada;
Dessa vez não deixou nada,
Carregou tudo na pança…
Era um ‘esmeril de França’
A porca preta pelada.

De outra feita fez um oco
Na roça de Tia Zefa:
Comeu quase uma tarefa
De jerimum de ‘caboco’…
Derrubou dez pé de coco,
Cada um de uma dentada…
E titia aperreada
Com essa terrível arte,
Quis matar de bacamarte
A porca preta pelada.

Paguei todo o prejuízo,
Depois chamei um pedreiro,
Mandei fazer um chiqueiro
Do jeito que era preciso.
Gastei até ficar liso,
Mas ela ficou trancada,
Tia ficou sossegada,
Eu sossegado fiquei,
Porque nunca mais soltei
A porca preta pelada.

Já fazia um ano e meio
Que a suína estava presa,
Quando uma rude tristeza
Quase aniquilar-me veio.
Foi grande o meu aperreio:
Ela amanheceu deitada,
Sem comer, acabrunhada…
Fui ver o que tinha sido,
A cobra tinha mordido
A porca preta pelada.

Mandei logo um portador
Chamar Seu Zeca Toinho,
Ele foi num minutinho
E trouxe o tal curador.
Este me fez um favor
Que eu não pagarei com nada:
Deixou a bicha curada,
Nunca vi reza tão forte!
Tirou das garras da morte
A porca preta pelada.

Aí gastei mais dinheiro
Pra dar proteção a ela:
Comprei dez metros de tela,
Dessa de fazer viveiro.
Cobri de tela o chiqueiro,
Não deixei brecha pra nada.
A tela era tão fechada
Que não passava nem grilo.
Então fui cevar tranqüilo
A porca preta pelada.

E para recuperar
Todo aquele dinheirão
Adquiri um barrão
Para com ela cruzar.
E, para a estória encurtar.
Apareceu a ninhada!
Até que sei tabuada,
Mas quase que não contava…
Todo mundo admirava
A porca preta pelada.

Ao todo eram trinta e três,
De robusto a mais robusto!
Com um mês, causavam susto:
Já pareciam ter seis…
‘Enriqueci’ de uma vez
Na venda da bicharada:
Vendi a cem contos cada,
Enchi os bolsos contente
E fui cevar novamente
A porca preta pelada.

Inda deu mais sete crias,
Cada qual mais numerosa
Ficou mais do que famosa,
Me deu milhões de alegrias!
Mas também deu-me agonias:
Morreu de velha,  coitada…
Hoje só resta a ossada
Da rainha dos suínos,
Assombração dos meninos,
A porca preta pelada.

Tabira-PE, 1970

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de alegria, de surpresa e de guimarães rosa

quer alegria? felicidade? conhecer o que não conhecia e se lembrar pra sempre? taí guimarães rosa em voz e jeitinho! que alegria, surpresa e felicidade! em entrevista a tv alemã, ele comenta o grande sertão veredas, um quase "Fausto sertanejo"

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Funeral na Coxilha

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Funeral na Coxilha

ontem li e botei música em versos do poeta gaúcho Sergio Carvalho Pereira que falam da morte de um cavalo. foi tendo em mente meu amigo Afonso Gadelha, que me ensinou a gostar mais desses bichos finos

 

Funeral da Coxilha
Túlio Borges / Sérgio Carvalho Pereira

repousa o corpo tranquilo
no funeral da coxilha
a terra bordada em flechilha
é o catre de quem retorna
a tarde encomprida a forma
das guanxumas e alecrins
não há tristezas nem fins
na morte que o campo adorna

não há tristeza no pio
da perdiz ciscando a vida
não há fins quando a partida
vai se tornando a chegada
quem foi de campo e de estrada
não quer melhor companhia
que o largo das sesmarias
no luxo da invernada

morreu num final de tarde
entre o pasto rebrotado
quando uma ponta de gado
buscava a paz de um capão
a noite avende um clarão
prendendo as velas miúdas
aos dois olhos da coruja
no castição de um moirão

o campo todo recebe
corpo e alma em funeral
se tornará cinza e sal
fundido com terra e água
e o choro da madrugada
que entre seus pelos se entranha
dá brilho à teia de aranha
que a macega deu pousada

por isso é que a minha gente
jamais enterra um cavalo
o campo sabe cuidá-lo
quando pra nós tudo encerra
a natureza não erra
ressuscita na coxilha
nas flores da maçanilha
graça e força sobre a terra

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