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A história deste disco começa no Sítio dos Grossos, em São José do Egito, Pernambuco. Em 1942, na terra dos maravilhosos vates do repente, onde quem não é poeta é louco e quem é louco faz poesia, nasceu meu pai. De lá vieram os nomes quase sagrados de Pinto do Monteiro e Louro do Pajeú pousar humildes, silenciosos e agigantados na minha infância, trinta e oito anos depois e a mil e quinhentos quilômetros distante, em Brasília. Percebi cedo, como um processo geológico que pede o passar consistente e misterioso de muito tempo para formar uma pedreira e uma jazida, a poesia do improviso no sertão do Pajeú. De modo que na adolescência eu ouvia cassetes de cantoria, me interessava por folhetos e aprendia quem eram os grandes da poesia nordestina.

Em 2012, em viagem para levar meu pai que fazia vinte anos não revia a terra e os familiares, lá voltamos. Fora a emoção dos reencontros, lembranças diversas de todos, o bode com arroz de leite, o bolo de caco de minha tia e as cantorias, houve um pulo à cidade de Patos da Paraíba. Era noite escura e íamos com a estrada iluminada apenas pela Veraneio, quando meu primo Alex pôs no som um CD de Zeto e adiantou que eu ia gostar... Começava ali, de súbito naquela noite feita, uma outra viagem dentro da viagem. Zeto solava na escuridão, do violão arrancava um diamante bruto, recitava, cantava como se houvesse apenas isso no mundo, atitude e poesia assombrosas. Remetia-me à essência mais bonita, atemporal e que mais me emociona no ser humano. Fiquei doido e, com meu juízo, quis aprontar logo um disco.

Anos depois, juntei os queridos parceiros e parcerias e aqui está. Este trabalho é fruto da minha admiração pelos poetas e cantadores nordestinos, uma interpretação e aproximação da minha história.

Túlio Borges

I

Em meio aos desencontros da existência
Nesse mundo distante da beleza
Um povo bom verseja em resistência
E faz da poesia a realeza
Em um lugar de puro encantamento
Os versos chegam no soprar do vento
Como recados vindos do infinito
Os seus poetas são heróis da terra
Flor de cultura que num pé de serra
Foi batizada São José do Egito.


II

Os cantadores são os faraós
Que com repentes erguem dinastias
E seus poemas brilham qual faróis
Iluminando as novas cantorias
É assim geração a geração
Meu São José renova o seu baião
Com a mesma história sendo recontada
Novos heróis travando a mesma luta
Fazem da voz enxada pra labuta
De poesia pura, improvisada.


III

Incontáveis poetas nesse ninho
Por vontades mundanas e divinas
Versejando e cantando ao som do pinho
Ofertaram à arte suas sinas
Mais de cem anos feitos de improviso
Cantando o pranto, vertendo um sorriso
Um povo calmo, mas irrequieto...
E em meio a tanta história improvisada
Uma conta a paixão poetizada
Que explodiu entre São José e Zeto.


IV

Zeto era um poeta-caminhante
Um cantador nascido noutra sé
Mas por lá nunca foi um visitante
Já chegou como filho em São José
Trouxe junto do verbo a inquietude
Trouxe, além de poesia, a atitude
De quem vive de fato a poesia
No Palácio do Rei foi hospedado
Se tornou cavaleiro e foi amado
Da caçula da última dinastia.


V

No seu dote, ele trouxe um violão
Como oferta à Princesa Beatriz
Que em troca entoou uma canção
E a poesia foi quem foi mais feliz
Pois os dois se juntaram pela estrada
Com canção, com viola e com toada
Até Zeto partir pro infinito...
Virou mito e será sempre presente
Na Princesa, no Reino e no Repente
Que ecoa por São José do Egito.

 

Antonio Marinho
Recife, 5 de fevereiro de 2015

 

ficha técnica

06. CANÇÃO DO PIAUÍ UNIDO
(
TÚLIO BORGES / CLIMÉRIO FERREIRA)

Excerto musical no fim: Te Cuida, Jacaré (Dominguinhos)

Túlio Borges - Voz
Rafael dos Anjos - Violão
Júnior Ferreira - Acordeom
Hamilton Pinheiro - Baixo elétrico
Valério Xavier - Pandeiros, agogô, afoxé e triângulo
Papete - Zabumba, triângulo, pandeiro, pandeirão, udu, maracas, matracas, tamborim e ganzá
Coro *

07. FORRODÁ (FORRÓ QUE ROLA)
(AFONSO GADELHA / TONY)

Túlio Borges - Voz
Rafael dos Anjos - Violão
Fernando César - Violão de 7
Júnior Ferreira - Acordeom
Pedro Vasconcellos - Cavaquinho
Hamilton Pinheiro - Baixo elétrico
Valério Xavier - Pandeiro, zabumba e triângulo
Papete - Agogô, apitos e efeitos
Coro *

08. SÃO JOÃO
(ANTHONY BRITO / TÚLIO BORGES)

Túlio Borges - Voz
Lucas de Campos - Violões
Leander Motta - Zabumba, triângulo, caixas, caxixi, afuche, block, ovinho, queixada e efeitos

09. ADORÁVEL TROVADOR
(TÚLIO BORGES / TOTY)

Túlio Borges - Voz
Rafael dos Anjos - Violão
Daniel Sobreira - Violão de aço
Júnior Ferreira - Acordeom
Oswaldo Amorim - Baixo elétrico
Papete - Alfaias, gonguê, agogô e maracas
Leander Motta - Caixa

10. BAILARINA
(TÚLIO BORGES / JESSIER QUIRINO)

Túlio Borges - Voz
Rafael dos Anjos - Violão
Júnior Ferreira - Acordeom
Pedro Vasconcellos - Cavaquinho
Hamilton Pinheiro - Baixo elétrico

11. BAÚ DE GUARDADOS
(
TÚLIO BORGES / CLIMÉRIO FERREIRA)

Túlio Borges - Voz
Paulo André Tavares - Violão
Pedro Vasconcellos - Cavaquinho

01. NANQUIM
(TÚLIO BORGES / JESSIER QUIRINO)

Túlio Borges - Voz
Rafael dos Anjos - Violão
Júnior Ferreira - Acordeom
Pedro Vasconcellos - Cavaquinho
Hamilton Pinheiro - Baixo elétrico
Papete - Pandeirão, potinho de filme, ganzá, ovinho, pandeirola, bells, sininho e carrilhão
Leander Motta - Caixa

02. TU
(TÚLIO BORGES)

Túlio Borges - Voz e violão
Lucas de Campos - Violão
Júnior Ferreira - Acordeom
Cacai Nunes - Viola brasileira
Oswaldo Amorim - Baixo acústico
Valério Xavier - Triângulo, pandeiro, afuche e agogô
Coro *

03. COCO DO PÉ DE MANGA
(
JESSIER QUIRINO)

Túlio Borges - Voz
Lucas de Campos - Violão
Fernando César - Violão de 7
Júnior Ferreira - Acordeom
Pedro Vasconcellos - Cavaquinho
Victor Angeleas - Bandolim
Valério Xavier - Pandeiros, triângulo, congas e agogô
Papete - Zabumba, triângulo, agogô e ganzá (vinheta do fim)
Coro *

04. SERTÃO DAS ALMAS
(
TÚLIO BORGES / CLIMÉRIO FERREIRA)

Túlio Borges - Voz
Rodrigo Bezerra - Violões
Davi Abreu - Pífanos
Oswaldo Amorim - Baixo acústico
Valério Xavier - Cavaquinhos, pandeiro, triângulo, reco-reco e block
Papete - Rói-rói e efeitos

05. OLHO NU
(KLEBER ALBUQUERQUE)

Túlio Borges - Voz
Rafael dos Anjos - Violão
Júnior Ferreira - Acordeom
Pedro Vasconcellos - Cavaquinho
Hamilton Pinheiro - Baixo elétrico
Rafael dos Santos - Zabumba, triângulo, agogô, ovinho e efeitos
Papete - Bongô

 

* Coro: Cacá Pereira, Toty, Afonso Gadelha, Júnior Ferreira e Valério Xavier

 

Produzido por Túlio Borges
Gravado nos estúdios Feedback, Orbis e Nota e Arte (Brasília)
Mixagem: Daniel Félix e Túlio Borges, no estúdio MixRuts (Brasília)
Masterização: Scott Hull, no estúdio Masterdisk (Nova Iorque - EUA)
Programação visual: Fabrício Olivieri
Produção gráfica: Léo Gonçalves
Fotografia: Asley Ravel

Março/2015